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AMAR A IGREJA HOJE
UMA REFLEXÃO SOBRE SIGNIFICADOS DAS CELEBRAÇÕES DO 15.09 EM PORTUGAL, À LUZ DA VIDA D IGREJA DE HOJE
Padre José Melo | 18-09-2018

Querida Família de Schoenstatt

As palavras Dilexit Ecclesiam - amou a Igreja - inscritas no túmulo do Padre Kentenich, ressoaram forte nas celebrações dos 50 anos da sua morte, no passado dia 15 de setembro. Palavras que nos guiam e nos desafiam. Em Portugal, as celebrações tiveram uma marca própria e original, e gostaria de partilhar convosco umas notas sobre o seu significado.

Acredito que esta é uma oportunidade para ouvir o que o nosso Pai e Fundador tem para nos dizer em relação às circunstâncias concretas que marcam hoje a vida da Igreja, circunstâncias que, como todos sabemos, criam dor e vergonha, perplexidade e alguma confusão. Refiro-me em particular ao escândalo dos abusos, contestação pública ao Papa Francisco por parte de alguns grupos dentro da Igreja e o surgir da chamada tendência “tradicionalista”. A vida da Igreja é muito mais do que estas circunstâncias, mas pelo seu peso e caracter mediático vão estando mais presentes nas nossas vidas.

Como Movimento de Schoenstatt em Portugal, estivemos a celebrar em simultâneo em várias dioceses, em comunhão com os bispos diocesanos. Em Aveiro, Braga e Porto, nas Sés Catedrais; em Coimbra, na Igreja de Santa Cruz; no Funchal, na capela da Penha de França; em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos. Verdadeiramente é uma alegria constatar que somos uma família unida na diversidade e na fidelidade ao nosso Fundador.

O espírito da celebração esteve marcado pelas palavras escritas no seu túmulo: Dilexit Ecclesiam – amou a Igreja – e tivemos um gesto comum e cheio de significado: o compromisso apostólico com a Igreja. Nele, através da voz dos conselhos diocesanos, expressamos duas coisas centrais:

• Reafirmamos a decisão de seguir o nosso Pai e Fundador na fidelidade e amor à Igreja

• Renovamos a promessa do Padre Kentenich ao Papa Paulo VI no sentido de nos comprometermos com a Igreja no espírito do Concílio Vaticano II

Juntamente com isso, oferecemos a cada bispo uma foto do P. Kentenich com o Papa Paulo VI e, simbolicamente, a ânfora do capital de graças cheia dos compromissos apostólicos pessoais de tantos membros da nossa Família, assumindo apostolados concretos, conforme a realidade e estado de vida de cada um, de modo a gerar uma cultura de Aliança nas nossas paróquias e lugares onde atuamos, contribuindo assim para uma nova ordem social cristã.

Foi o culminar de um caminho que foi ganhando vida. Ao longo do ano, na oração da celebração da Aliança, no dia 18 de cada mês, escutámos a interpelação do P. Kentenich: E tu, vens comigo? e todos respondíamos: Ao longo deste ano, queremos caminhar juntos e crescer na fidelidade ao nosso Pai e Fundador, para lhe respondermos num só coração: “Sim, aqui estamos! Vamos contigo!”. E assim também, como ele, amar a Igreja e colaborar na sua missão.
Tudo isso aconteceu verdadeiramente no dia 15 de setembro e por isso damos graças!

Da forma como celebrámos e no que expressámos podemos extrair três linhas orientadoras muito claras:

• Amar a Igreja
• Servir a Igreja no espírito do Concilio Vaticano II
• Seguir pelo caminho do nosso carisma


Amar a Igreja

O Padre Kentenich amou a Igreja sempre e em toda a sua vida. Ele viveu e deu a vida por amor a Schoenstatt, à Igreja e à Santíssima Trindade. Tudo o que realizou e sofreu foi por fidelidade a este amor. Pela Igreja construiu Schoenstatt, por amor à Igreja foi prisioneiro num campo de concentração, por amor à Igreja permaneceu fiel mesmo quando foi incompreendido e exilado de Schoenstatt pela própria Igreja. Hoje também nós nos decidimos a amar a Igreja como ele.

Amar a Igreja querida e amada por Jesus, por quem Ele deu a vida; a Igreja que acredita no Seu Senhor e sabe que Ele vai na barca, seja no meio da tempestade, seja para ir mais além; amar a Igreja conduzida pelo Espírito Santo.

O amor à Igreja é concreto! amamos a Igreja em cada cristão e com quem partilhamos a fé, os que estão mais distantes e os que estão a caminhar ao nosso lado; amamos e sofremos com os perseguidos em tantos lugares do mundo e com os mais afastados; amamos os que vão à missa connosco, e os que fazem parte da nossa comunidade, na paróquia ou noutro local , sejam de um ou outro movimento, amamos construindo a unidade, criando pontes e não rivalidades.

Amamos a Igreja construindo a unidade na diversidade e lutando contra toda a tentação de divisão, promovendo o diálogo e evitando extremos. Como o nosso Pai e Fundador, tentamos descobrir, discernir e acolher os sinais da ação renovadora do Espírito Santo.

Amamos a Igreja na comunhão com os seus pastores, especialmente na comunhão com o Papa, hoje com o Papa Francisco, antes com o Papa Bento XVI ou com o Papa João Paulo II, para citar apenas estes últimos três papas. Reconhecemos nele e nos bispos, assim como em todos os pastores a eles unidos, a autoridade que é reflexo da paternidade de Deus, um princípio de unidade fundamental que ajuda a criar a Igreja como uma família. Desejamos que essa autoridade, à imagem do Bom Pastor, seja exercida e cuidada como serviço, com transparência e verdade, com humildade e mansidão.

No último tempo, os bispos de Portugal têm referido a uma só voz esta comunhão e sintonia. Nós, no sábado passado também o dissémos e reafirmámos. Neste ponto não pode haver dúvidas! Pode haver muito espaço para a discussão, podemos não estar de acordo com tudo, mas a partir do momento em que colocamos em questão esta unidade e comunhão, vamo-nos afastando do amor à Igreja.

Amamos e sofremos com a igreja nos mais frágeis, naqueles que não têm voz ou foram silenciados, nos que sofreram nas mãos dos membros da própria Igreja, sempre que em vez do Bom Pastor encontraram os salteadores.

Amamos a Igreja que nos desilude, nos magoa e por vezes nos envergonha. Amamos e sofremos com esta Igreja ferida pelos próprios pecados e infidelidades, amamos e sofremos com a Igreja que é motivo de escândalo e não dá verdadeiro testemunho do Seu Senhor.

No contexto da revelação dos abusos de menores, abusos de poder e abusos de consciência, amar e sofrer com esta Igreja concreta é aceitar os desafios que nos deixou o Papa Francisco na carta ao povo de Deus que escreveu no dia 20 de Agosto, pedindo a nossa colaboração no processo de conversão, de purificação e de transparência, para que se faça justiça e se evite repetir erros e crimes passados.

Nesse sentido, amar a Igreja hoje é optarmos, cada um de nós, pelo caminho da santidade para que a luz do Espírito Santo brilhe mais forte que as trevas do pecado.

E assim, cheios de esperança, amamos a Igreja que nos enche de alegria, quando vemos brilhar a luz do testemunho e da caridade; amamos a Igreja que é como o bom samaritano no meio da humanidade. Amamos a Igreja dos santos, os “grandes santos” reconhecidos, os anónimos e os “de ao pé da porta”; amamos a Igreja que reza e celebra; amamos a Igreja que é sinal da presença de Deus no meio do mundo.


Servir a Igreja do concilio Vaticano II

Amamos a Igreja servindo a sua missão … e em concreto a missão que nasce do concílio Vat II. Essa foi a promessa do PK ao Papa Paulo VI e que nós renovámos no passado sábado.

O concilio Vaticano II continua a ser a referência para a vida da Igreja hoje. Aí estão os traços do rosto renovado da Igreja. Dessa redescoberta de si mesma, contemplando o rosto de Cristo, a Igreja, renovou-se no espírito do Evangelho e assim, recriando-se nas suas fontes abraçou com novo ardor a missão de ser sinal de salvação para o tempo atual.

A partir desta renovada auto compreensão, como expressão e concretização, a Igreja renovou-se em tantas dimensões que tocam as nossas vidas. Num breve olhar ao concilio, é fácil perceber como a partir da constituição dogmática Lumen Gentium, sobre a Igreja, surgem as outras três sobre a revelação divina (Dei Verbum), sobre a liturgia (Sacrosanctum Concilium) e sobre a Igreja no mundo atual (Gaudium et Spes). Reforçadas por vários decretos como por exemplo, sobre o ministério dos bispos e dos sacerdotes, o apostolado dos leigos ou sobre o ecumenismo.

Daí se percebe como há uma Igreja que se reorganizou nas suas estruturas, tronando-se menos hierárquica e sinodal, com mais espaço à participação de todos. Uma Igreja que se reformou na liturgia, para expressar melhor a dimensão comunitária e a participação mais plena, consciente e animada de todos os fieis, pelo batismo constituídos como povo sacerdotal; nessa linha também se abriu o uso das línguas próprias de cada povo e não apenas o latim. Uma Igreja que se abriu ao diálogo ecuménico e com as outras religiões, reconhecendo que na unidade o testemunho é ainda credível. Uma Igreja que encontrou novas formas de participação dos leigos, através dos ministérios laicais, valorizando a riqueza de todos a partir da sua realidade no meio do mundo. Uma Igreja que chama todos os seus filhos à santidade no meio o mundo.

Tudo isto para a Igreja realizar mais plenamente a sua missão no meio do mundo que está em permanente transformação. Tudo isto para que a Luz de Cristo que brilha no rosto da Igreja, ilumine todos os povos. Tudo isto, nas palavras do Papa Francisco, para que seja uma Igreja em saída que vai ao encontro de todos para levar a alegria do Evangelho. Nesse sentido, a partir do Vat. II, todos os papas, cada um com a sua originalidade, têm seguido com fidelidade este espírito procurando concretizá-lo na vida quotidiana da Igreja. E assim a Igreja continua a caminho.

O P. Kentenich deixou-nos uma herança preciosa sobre esta compreensão da Igreja a partir do vaticano II. Para ele, é a Igreja das novas praias, aquela que se atreve a subir ao barco para remar mar adentro ou passar à outra margem, saindo das suas fronteiras. Entre outros, ele destaca alguns traços deste rosto da Igreja (8.12.1965):

É uma Igreja que, por um lado, está interiormente animada, ligada profundamente à tradição, mas por outro livre, separada de formas rígidas e tradicionais.
É uma Igreja unida por profunda fraternidade, mas ao mesmo tempo hierárquica, regida e orientada paternalmente.
É uma Igreja que tem por missão tornar-se a alma da cultura e do mundo atual e futuro.


Sobre esta renovação da Igreja podemos ler alguns textos do P. Kentenich em português, por exemplo, em desafios do nosso tempo, capítulos 2 e 3.

Seguindo o nosso Pai e Fundador, é esta a Igreja que queremos servir e construir. Por isso, no sábado passado, renovando a promessa do P. Kentenich de servir a Igreja no Espírito do Vaticano II, assumimos alguns compromissos concretos:

• Assumimos o compromisso por uma Igreja que seja mais família;
• Assumimos o compromisso por uma igreja em comunhão com o Santo Padre, redescobrindo o sentido da autoridade como reflexo da paternidade de Deus;
• Assumimos o compromisso por uma Igreja peregrina e dinâmica, fiel às suas raízes, mas livre e aberta à permanente renovação;
• Assumimos o compromisso por uma Igreja mais mariana, mais materna, mais humilde, mais próxima de cada um dos seus filhos

Na sua homilia no Mosteiro dos Jerónimos, D. Joaquim Mendes, deixou-nos alguns desafios concretos que complementam estes compromissos.

Nas circunstâncias atuais da Igreja, assistindo a uma crescente polarização, a referência ao concilio Vaticano II é fundamental e esclarecedora do caminho que queremos traçar. No passado sábado, em Schoenstatt, a homilia do P. Alexandre Awi Mello, deixou-nos uma orientação bastante clara neste sentido quando descreve a opção por uma posição integral, no espírito do nosso pai e fundador.

Seguir pelo caminho do nosso carisma

O caminho para amar e servir a Igreja faz-se a partir do nosso próprio carisma porque essa é a forma original e própria que nos oferece o Espírito Santo.

Schoenstatt é um caminho de santidade, uma forma concreta de encarnar o evangelho e de seguir Jesus. É assim com todos os carismas que formam a riqueza da Igreja. No nosso caso temos uma espiritualidade concreta, uma ascética e uma pedagogia para os tempos atuais, uma cultura de aliança que se expressa em símbolos, em ritos e em lugares, em especial, no nosso santuário.

Procurando uma breve síntese deste nosso carisma, podemos por exemplo, olhar para a nossa espiritualidade, tal como o nosso Pai e Fundador a descrevia em três dimensões. De fato, no sábado passado, no compromisso apostólico, citando a homilia do bispo D. Tenhumberg durante as exéquias do P. Kentenich, reafirmamos esta tripla mensagem da espiritualidade de Schoenstatt:

• A primeira mensagem é sobre Deus: um Deus da vida.
Com uma visão profética, o Padre Kentenich anteviu os desafios dos tempos sem Deus, e tornou-se o grande anunciador da singela fé prática na Divina Providência.
• A segunda mensagem é a Aliança de Amor com a Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt.
O Padre Kentenich ensinou-nos que o nosso amor a Maria se concretiza na santidade de todos os dias e como instrumentos do Deus Trino.
• A terceira mensagem é a missão de Schoenstatt para a Igreja: uma missão na Igreja, com a Igreja e para a Igreja do tempo novíssimo.
O Padre Kentenich desejava oferecer à Igreja personalidades e comunidades novas sustentadas pela lei fundamental do amor.

No meio de um tempo que busca seguranças e dogmas, no meio de tantas ofertas, saibamos seguir o caminho onde Deus nos colocou. No nosso caso, tenhamos a coragem de percorrer o caminho da Aliança com profundidade, concretizando-o na santidade da vida diária e na entrega como instrumento nas mãos da nossa querida Mãe Três Vezes Admirável de Schoenstatt.

Termino citando as palavras que o P. Juan Pablo Catoggio, Presidente da Presidência Geral do Movimento Internacional de Schoenstatt, rezou no passado sábado junto do túmulo do nosso Pai e Fundador:

“O mundo de hoje precisa dessa igreja renovada, uma igreja humilde, dos pobres e para os pobres, desprendida do poder e animada pelo Espírito Santo. Uma igreja mariana, que seja família e casa aberta para todos; uma igreja que, com Maria e como Ela, seja mãe e leve aos homens do nosso tempo, aos muitos homens e mulheres feridos do nosso tempo, a misericórdia de Deus que nos salva e nos cura. Queremos oferecer à igreja um Schoenstatt missionário, um Schoenstatt em saída.

A aliança torna-se missão, torna-se cultura.
Pai e Fundador, dá-nos do teu fogo!
Dá-nos teu espírito de fundador!
Dá-nos a tua tripla paixão por Maria, pela Família e pela Igreja!
Vamos contigo!
Vive em nós e atua através de nós!”

18 de setembro de 2018
Padre José Melo