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D. Luz: Nota biográfica

d luzNasceu na Gafanha da Nazaré, filha de comerciantes. Foi boa aluna na escola primária e gostaria de ter continuado a estudar, mas, apesar da insistência da sua professora junto dos seus pais, não lhe foi permitido. Ficou-lhe, no entanto, o gosto por saber mais, por aprender sempre mais.

Aos 14 anos já os pais a encarregavam de ir a Aveiro, sozinha, de bicicleta, fazer certas compras para a casa. Depois de fazer as compras dos pais, passava sempre por uma livraria (Casa Católica), de onde trazia algum romance e outras obras de formação ou de cultura geral. Tudo lia, mas queria também partilhar. Por isso, quando estava a atender na loja dos pais, tinha os livros a um canto do balcão e depois de dois dedos de conversa convidava os clientes a levarem este ou aquele livro emprestado para lerem. Posteriormente faziam o comentário ao conteúdo, daí nascendo o interesse para lerem mais um livro.

 

Esta "biblioteca" ativa funcionou dos 14 aos 17 anos, idade com que casou com João da Conceição Bola de 23 anos, deixando então a casa dos pais. Tiveram sete filhos, tendo os três primeiros morrido antes dos dois anos de idade. No ano seguinte ao casamento João e Luz captados pelo movimento da Ação Católica, disponibilizaram a sala da sua própria casa para as reuniões da JOC, enquanto não se encontrasse um espaço adequado na paróquia, e mobilizaram-se a convidar jovens para engrossar as suas fileiras.

 

Em 1948 Maria da Luz conhece a Rosa Bela Vieira, mais nova do que ela seis anos, mas muito comprometida com a ajuda aos mais carenciados. Nessa época o surto de tuberculose atingiu fortemente a população. Não havia rendimentos para pagar ao médico e para ir à farmácia, o que as levou a empenharem-se fortemente no apoio às famílias atingidas por essa doença.
Aos 29 anos Maria da Luz fica viúva, com quatro filhos, e assume o trabalho do marido na gestão de um matadouro e três talhos dispersos pela freguesia.

 

No mesmo ano adere à recém-criada Conferência de S. Vicente de Paulo, juntamente com Rosa Bela e as duas continuam a desenvolver intensa actividade de ajuda aos mais necessitados: procura de emprego, ajuda na alfabetização, resolução de conflitos familiares, melhoria e reconstrução de casas em mau estado, etc.

 

Em 1953 surge outra área de intervenção. Numa loja da freguesia (mercearia e vinhos), a certa altura havia uma empregada que atraía as atenções dos rapazes e homens da terra. Algumas mães e esposas movimentaram-se para expulsar a rapariga que acabou por ser despedida. Maria da Luz conversa com a rapariga e descobre o lado de vítima daquela que era apontada como perversa; era mãe solteira, tinha vindo de fora e queria apenas um trabalho para viver e sustentar o seu filho. Recebeu-a em sua casa enquanto Rosa Bela mobilizava os seus conhecimentos tendo conseguido um emprego para ela. Uns dias depois foi despedida pois o patrão soube que ela tinha trabalhado naquele "tal" estabelecimento. Tentaram outros empregos, e acontecia sempre o mesmo. Que fazer? Maria da Luz recebeu-a de novo.

 

Sabendo desse caso, outras raparigas que trabalhavam numa barraca de tiro itinerante, de passagem pela Gafanha, aparecem em casa de Maria da Luz, de malas na mão, pedindo-lhe ajuda para mudarem de vida. Maria da Luz recebe-as a título provisório em sua casa, até se encontrar uma solução condigna. Maria da Luz e Rosa Bela percorrem o País à procura de uma instituição que receba as raparigas. Sem sucesso. Nesses contactos aperceberam-se que o sistema institucional era muito despersonalizante, todas as internadas tinham que usar farda, eram cortados os contactos com família e amigos e não podiam sair à rua. Nenhuma das instituições aceitava grávidas ou com filhos. Além de tudo isso, as casas não tinham vagas e as interessadas teriam de integrar uma lista de espera.

 

Queriam ajudar as mal-amadas, mas num ambiente familiar, em plena e responsável liberdade, numa casa onde pudessem adquirir hábitos de trabalho e sã convivência e onde pudessem manter consigo e cuidar dos seus próprios filhos. Não encontrando resposta adequada, e estimuladas pelo Bispo de Aveiro, acabam por assumir que a Providência de Deus as encaminha para a criação de um lar de acolhimento para raparigas rejeitadas pela sociedade e pela própria família, vindas ou não da prostituição. Nasce a Obra da Providência. Por lá passaram mais de 400 raparigas, a maioria entre os 15 e os 25 anos. Algumas acabaram por regressar à família, muitas casaram, outras empregaram-se e tornaram-se independentes.

 

Vinte anos passados, gradualmente a sociedade foi mudando havendo mais tolerância e aceitação a nível social e no mundo do trabalho, o que levou a Obra da Providência, nos anos 70, a encerrar o Lar passando a dar apoio externo às raparigas.
Com o crescente acesso da mulher ao mercado de trabalho vai-se impondo a necessidade de um local onde deixar os filhos enquanto as mães trabalham. Em 1975 a Obra adapta as instalações do Lar para Creche e Jardim-de-Infância para atender 115 crianças.

 

Com o decorrer do tempo e de acordo com as necessidades, outras valências foram sendo criadas: ATL - Atividades de Tempos Livres para as crianças ficarem depois da escola, até os pais saírem do trabalho; Colónias de Férias na serra, para filhos de famílias de fracos recursos e para crianças necessitadas dos ares das zonas serranas; Apoio Domiciliário a idosos; Creche Familiar; Recolha, triagem, reciclagem e distribuição de roupas usadas; Centro de Convívio Sénior, numa perspetiva de promover o envelhecimento de forma saudável e combater a solidão; Apoio a imigrantes do Leste, promovendo aulas de Português e facultando informação sobre legalização, emprego, legislação, direitos e deveres enquanto cidadãos. Em todas estas actividades foram pioneiras.

 

Maria da Luz, mesmo depois de ter deixado a direcção da Obra (em 2005), continuou a animar o Centro de Convívio Sénior, até que um Acidente Vascular Cerebral a impediu de continuar a ir diariamente à Obra, nos finais de 2012, com 90 anos.
Também em relação a Schoenstatt Maria da Luz esteve entre os primeiros em Portugal.

 

Contagiada pelo entusiasmo do pároco, padre Domingos Rebelo (que tinha feito parte da primeira peregrinação de portugueses a deslocar-se à Alemanha para conhecer Schoenstatt) adere a Schoenstatt e sela a sua aliança de amor a 16 de agosto de 1967. Nesse mesmo ano organiza uma semana de formação e estudo vocacional para preparar monitoras para a Obra da Providência que ia abrir um novo Lar, em Braga. Conhecendo as potencialidades da pedagogia do Movimento Apostólico de Schoenstatt para a formação de educadores, pede a colaboração do Pe. Domingos para orientar esse estágio. No final, algumas das participantes fizeram aliança de amor e uma delas, Alcinda de Sousa, decidiu dedicar a sua vida ao trabalho da Obra assumindo a responsabilidade pelo Lar de Braga. Pouco tempo depois essa mesma senhora integrou o grupo que fundou a União Apostólica Feminina de Schoenstatt em Portugal.

 

Nos anos 70 disponibiliza a sua casa para as reuniões dos primeiros grupos de Juventude Feminina de Schoenstatt e, mais tarde para os grupos de Mães de Schoenstatt, tendo sido nomeada chefe de Ramo, cargo que desempenhou até finais de 1987.
Quando, em 1975, o padre Miguel Lencastre convidou as irmãs de Maria a virem para a Gafanha, logo Maria da Luz lhes proporciona alojamento e emprego no Jardim Escola.

 

Durante anos Maria da Luz acompanhou os acampamentos da Juventude Masculina de Schoenstatt preparando as refeições e, em colaboração com o sacerdote responsável, assumindo uma presença maternal junto dos jovens. Organizou e preparou inúmeros almoços e vendas para angariação de fundos para a casa Sião e para a Casa José Engling. Participou ativamente na construção do Santuário. Nos encontros mensais do primeiro grupo de casais de Schoentatt do centro/norte de Portugal, era ela que cozinhava e cuidava das crianças. Também nas primeiras jornadas anuais do 1º curso do Instituto de Famílias na Península Ibérica foi ela que se encarregou das refeições. Esteve sempre ao lado do padre Miguel nas suas iniciativas: conquista do Alentejo, Santuário de Olinda, Recife... Estava sempre disponível para o serviço.

 

Em Maio de 1999 vai ao Chile à celebração dos 50 anos do 31 de maio e em Bellavista faz o seu compromisso de Carta Branca, recebido pelo padre Jaime Ochegavia, que já a tinha acompanhado quando estava em Portugal.
Sempre teve um carinho muito grande pelos sacerdotes, preocupando-se com a sua vocação e com o seu bem-estar. Foi membro da Associação do Sagrado Coração de Jesus (Apostolado da Oração). Esteve sempre ao serviço da paróquia: no conselho pastoral, como ministro da comunhão, na catequese, assumindo também muitas vezes a preparação individual de adultos para sacramentos (baptismo, crisma, matrimónio...).

 

A todos acolhia, independentemente da classe social, nível de instrução, religião... Era a Cristo e à missa diária que ia buscar a força para tudo o que fazia.
Muitas pessoas manifestam ainda hoje o seu agradecimento pelo acolhimento que sempre encontraram em Maria da Luz e pelos seus conselhos e orientação.

 

Outubro de 2016