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1965 - Carta de Natal do Pe. José Kentenich

1965 - Carta de Natal do Pe. José Kentenich à Família de Schoenstatt

 

Nota introdutória

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Em Dezembro de 1965 o P. Kentenich encontrava-se em Roma, depois de catorze anos de exílio em Milwaukee - EUA, imposto pelo Santo Oficio. Com o final do Concilio Vaticano II, esperava-se uma revisão da sua situação, mas os acontecimentos precipitaram-se: a 13 de setembro de 1965, recebeu um telegrama, supostamente da parte do Geral dos Pallottinos, pedindo que fosse imediatamente a Roma, mas nunca se soube quem o tinha enviado realmente. Para o P. Kentenich, este era um sinal da vitória de Nossa Senhora. Entretanto, depois de vários acontecimentos complexos em Roma, o Santo Oficio levantou todos os decretos contra o P. Kentenich, e o Papa Paulo VI confirmou a decisão com decreto assinado no dia 22 de outubro. No dia 22 de dezembro, ambos encontraram-se numa audiência e, na noite de Natal, o P. Kentenich já celebrou a Missa no Santuário Original, em Schoenstatt.
Neste contexto, a carta de Natal de 13 de dezembro de 1965, escrita a toda a Família de Schoenstatt, tem um significado especial da vitória de Deus.
Neste ano, ao celebrarmos os 50 anos destes acontecimentos, o Papa Francisco acaba de abrir o Jubileu da Misericórdia. Este é mais um motivo para agradecer esta carta, na qual o P. Kentenich quer chamar a atenção de toda a Família de Schoenstatt para o grande fruto do exílio: a nova imagem de Pai, de filho e de comunidade.

 

“Talvez tenham lido com alguma atenção a carta de Natal. Penso que a devam ler mais vezes."

(01-01-1966)


 

Roma, 13 de dezembro de 1965

 

Minha querida Família de Schoenstatt!
Mais do que em outros tempos, a festa de Natal que se aproxima leva-nos a lançar um olhar retrospetivo aos anos passados.

(...)

Ainda não conseguimos abranger completamente o quanto a nova imagem de filho, de Pai e de comunidade se tornou realidade em nós; (esta imagem) que, ao mesmo tempo, também pode ser esperada como dádiva permanente para todas as gerações da nossa Família.
Não é como se até agora não tivéssemos tido já um conceito claro desta tríplice imagem. Também é do nosso conhecimento que os seus vários traços marcaram, ano após ano, cada vez mais fortemente o indivíduo e a comunidade. É igualmente bem conhecido entre nós que a tríplice imagem é capaz de se desenvolver e de nos transformar até ao fim da nossa vida. Isto acontecerá tanto tempo até que na visio beata encontre a sua forma definitiva. No entanto, não podemos olvidar as profundezas a que esta transformação chegou no final do segundo cativeiro.

 

Isto vale primeiramente da imagem de Pai que, para nós, foi sempre Deus como Pai de amor. A isto indica a forte acentuação da lei fundamental do mundo que determinou e penetrou, desde o princípio, o espírito da Família. Não sabemos apenas teoricamente, mas também na prática que a razão de todas as razões do atuar de Deus é, em última análise, o amor. Tudo o que tem a sua origem em Deus realiza-se por amor, através do amor e para o amor. Em todos os tempos considerámos como nossa missão especial, fazer desta divina lei fundamental do mundo a nossa lei fundamental da vida e da educação. Sabíamos também que devíamos compreender este amor de Deus com o seu traço caraterístico de amor misericordioso. O que, no entanto, é novo para nós é a extraordinária grandeza deste amor misericordioso de Deus.
Se até agora nos deixámos conduzir mais fortemente pelo pensamento do amor de justiça – ou seja pela atitude de que tínhamos que merecer este amor através da nossa vida e atuação, através de todo o tipo de sacrifícios de amor – então também hoje ainda continuamos a assegurar esta convicção crente e a nos esforçar, da mesma forma, por causar alegria ao Pai do Céu. No entanto, em se tratando da valorização, estamos prestes a não tomar como muito importante a nossa cooperação. Importante para nós é só Deus: o Pai e o seu amor misericordioso. Em última análise, Ele não nos ama – como já ensinámos desde o início da história da nossa Família – porque fomos bons e bem-comportados, mas porque Ele é o nosso Pai, ou porque nos concede mais ricamente o seu amor misericordioso quando, da nossa parte, afirmamos alegremente os nossos limites, as nossas fraquezas e misérias e os considerarmos como o título essencial para abrir o seu coração e fazer jorrar o seu amor.

 

Por isso, no futuro, queremos apelar, mais do que até agora, a dois títulos diante de Deus: à sua misericórdia infinita e à nossa miséria insondável. De bom grado juntamos as mãos e rezamos:
Querida Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt, cuida que nos experimentemos como filhos de Rei miseráveis e dignos de misericórdia e, deste modo, passemos pela vida como prediletos do infinito amor misericordioso de Deus Pai.
Com isto identificámos à nossa maneira a imagem de Pai de Santa Teresinha e a escolhemos como nosso ideal. Como ela, no futuro, não queremos ser tanto um holocausto da justiça, mas da misericórdia, ou seja não queremos deitar mãos a todo o bem que fizemos e ao título de direito à justificação que deste modo adquirimos, mas contamos, antes de mais, em todas as situações, com a misericórdia infinita de Deus Pai e com a nossa própria miséria, enquanto a aceitarmos de bom grado e estivermos conscientes de que, desta forma, atraímos de modo singular a misericórdia de Deus sobre nós, sobre a nossa Família, sobre a Igreja e o mundo inteiro. A "Santidade de todos os dias" chama a isto: fraqueza reconhecida e aceite do filho significa a omnipotência do filho e a impotência do Pai.
Com isto caracterizámos, ao mesmo tempo, a nova imagem de filho que, nos catorze anos passados, pudemos viver e vivenciar e que queremos transmitir às gerações futuras.

 

A nossa imagem de comunidade contém traços supratemporais marcados pela nossa Aliança de Amor com tudo o que esta abrange. Desde sempre tínhamos consciência de que a Aliança de Amor com a nossa querida MTA era considerada e realizada como expressão, proteção, segurança e meio para a Aliança de Amor com a Santíssima Trindade e para a Aliança de Amor entre nós mutuamente e pelos outros. Ano após ano pudemos vivenciar mais profundamente este entrelaçamento das Alianças. Como normalmente o grau das Alianças com o mundo sobrenatural determina o grau semelhante da Aliança entre nós mutuamente, é fácil perceber como é verdade a constatação feita por nós no final do segundo cativeiro: a fusão de corações entre nós, ou seja entre Pai e Mãe e filhos e dos filhos entre si, chegou a uma profundidade misteriosa que somente à luz da fé e com base na irrupção do divino na nossa Família pode ser minimamente compreendido. Hoje temos a certeza de que todos juntos entrámos numa inexplicável comunhão de sorte, de tarefas e de corações como dificilmente se encontra em outro lugar. Todos em conjunto carregaram a mesma cruz que, desde toda eternidade, estava prevista para o Pai da Família e, no devido tempo, foi colocada sobre os seus ombros. Todos, sem exceção e à sua maneira, colocaram à disposição os seus próprios ombros. Isto, por sua vez, se realizou de tal forma que o peso da cruz perdeu a sua carga, porque ninguém precisou de carregar sozinho o fardo pesado. Deste modo vivemos juntos um anímico um-com-o-outro, no e para-o-outro que somente agora compreendemos mais a fundo como é o novo homem na nova comunidade. Certamente, suspeitamos também que com isto nos aproximamos de um ideal, ao qual a Igreja do futuro naturalmente se sentirá impelida a estender a mão e, com razão, poderá aplicar a si o elogio: Vede como se amam.

 

Se num breve olhar retrospetivo aos anos passados podemos ver num conjunto o fruto das permissões e direções divinas, com certeza se despertam e aprofundam em nós naturalmente duas atitudes fundamentais. É em primeiro lugar a atitude de uma profunda gratidão. Gratos, queremos dar as mãos à nossa querida Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt como expressão visível das mãos do Deus Trino. Gratidão devemos também uns aos outros pela fidelidade com que carregámos a cruz partilhada, e queremos prometer uns aos outros fidelidade inabalável no amor. Os muitos presentes que, por ocasião do meu octogésimo aniversário, me foram oferecidos de todos os lados – ou seja de todos Ramos – e que eu agradeço cordialmente, considero-os como símbolo da entrega indissolúvel do coração à minha pessoa como expoente da Família e como imagem do Deus Trino.

 

Sei que a intenção foi esta, e sei também que foram pensados como símbolo para o próprio coração. Por isso, tanto a oferta como a aceitação exprimem uma fusão mútua de corações como não se encontra, nesta forma e neste grau, com tanta facilidade na história da salvação. Parece-me evidente que a sabedoria paternal de Deus e os cuidados maternais de Nossa Senhora exigem, deste modo, a vivência da nova comunidade como modelo para a nova vivência de Igreja que os Padres Conciliares anseiam tão calorosamente para a Igreja na nova margem e à qual todos gostariam de estender as mãos.

 

Resumindo tudo isto, a alma e o coração não se cansam de repetir a oração de gratidão:

Obrigado por tudo, Mãe,
por tudo, de coração, eu te agradeço
e quero unir-me profundamente a ti com íntimo amor.
O que teria sido de nós, sem ti,
sem o teu cuidado maternal!

Obrigado, porque nos salvaste de grandes dificuldades.
Obrigado, porque com amor fiel nos cativaste.
Eternamente reconhecido, quero agradecer-te
e consagrar-me a ti com amor indiviso.

 

Como antigamente em casos semelhantes, assim também nesta situação não esquecemos o axioma: dádivas são tarefas! O que herdámos dos nossos pais, queremos adquiri-lo dia por dia de novo para o possuir e entregá-lo às gerações vindouras como um bem sagrado da nossa tradição.

(...)

Se agora transmito a todos os membros e ramos da Família cordiais votos de Natal e de Ano Novo, torna-se compreensível o que quero dizer:
A bênção de Deus para todos nós no sentido dos anos passados e da nossa missão no futuro.

 

Com cordial saudação e bênção sacerdotal!
J.K.

 

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